EU ESTAVA DORMINDO
Não sei por que mas eu sempre gostei de máquinas
velhas! Seja qual for o motivo, gosto de ficar analisando peça por peça,
tentando decifrar como o inventor pensou, o perfeito funcionamento da mesma, a
importância de cada peça, para que em conjunto o motor funcione com tanta
precisão! Na ocasião em que aconteceu este episódio, eu deveria ter uns dez ou
onze anos e morava com meus avôs maternos, pois meus pais haviam morrido, na
Vila Operária da Fábrica Nacional de Motores, que fica ao pé da serra de
Petrópolis. Perto de casa tinha um carro velho abandonado, que era o meu maior
tesouro, eu passava horas e horas ali brincando de mecânico ou de motorista, às
vezes ficava apenas sentado pensando no dia em que eu poderia consertá-lo e
sair passeando por aí. Certa noite, quando eu sai
para ir à escola – nesta época eu estudava no período noturno – passei pelo
carro, e como ainda estava cedo para o começo da aula entrei, sentei no banco
traseiro e fiquei entregue aos meus pensamentos, acabei dormindo. Quando vovó
viu que já passava muito da hora que eu costumava chegar e eu não aparecia chamou
todos para procurar por mim. Procuraram por toda a vizinhança, até na delegacia
registraram o meu desaparecimento e colocaram policiais a minha procura. Por
volta das quatro horas da madrugada, vovô chegou em casa muito cansado, foi
para o quarto descansar um pouco, antes porém orou a Deus: “Meu querido Pai,
estou muito preocupado com meu neto, por isso me mostra onde ele está”. Neste
momento, mesmo antes dele terminar a oração, veio a sua mente a imagem do carro
velho, ele correu para lá e eu estava dormindo tranquilo como um anjinho...
Vovó ficou muito brava comigo, e quis me dar uma boa e merecida surra, mas vovô
disse para ela: “não bata nele não minha filha, nos devemos é agradecer a Deus
por ter usado seu neto para mostrar que ELE ouve nossas orações, e está sempre pronto para nos ajudar nas horas de angústias”.
Vovó se acalmou e eu escapei de levar uma surra.